A mordida imprime na pele uma marca, e acredita-se que isso seja um fator importante para causar uma grande mobilização. Sabe-se que faz parte desta fase do desenvolvimento, mas quando acontece…

Este é um tema bastante discutido nas instituições de ensino que recebem crianças de 0 a 3 anos.

Na tentativa de respondermos o porquê as crianças mordem acreditamos ser importante compreender que:

– nascemos com reflexos e todo o trabalho do primeiro ano de vida das crianças é coordenar as partes do corpo, juntar este corpo que vai se constituindo como corpo com os objetos que encontra no ambiente;
-estas crianças utilizam a inteligência sensório-motora para entrarem em contato com o mundo;
– estão na fase do Egocentrismo, na qual a criança imagina que o mundo funciona e existe por causa dela;
-as necessidades, percepções e modos de expressão da criança estão originalmente concentradas na boca, língua e outros órgãos relacionados com a zona oral;
-as crianças estão em fase de amadurecimento e consequentemente estão aprendendo a exteriorizar o que compreendem do mundo ao seu redor;
– através do desenvolvimento do Sistema Nervoso Central começam a elaborar o TATO/ o OLFATO / o PALADAR – por fim a FALA;
-a expressão corporal é o vocabulário que a criança utiliza para comunicar seu estado interior, desejos, necessidades;

A par dessa contextualização vamos refletir sobre a criança que morde. Compreendemos que pode estar relacionado a:

– um comportamento voraz, movimento vital que a faz “atacar/explorar” o mundo. Todo sintoma tem sua vantagem, morder o outro provoca um evento como, o colega berra, ou pode ser a busca por uma resposta previsível. Consideramos importante esclarecer que a agressividade nesta fase deve ser vista como uma busca de contato e não como algo maldoso;
– pode ser um sinal de interesse afetar/interagir com o outro. Paradoxalmente, pode ser gostar demais do colega para se aproximar do que o outro tem de interessante. Nessa faixa etária o outro ainda é um objeto para mim;
– pode estar relacionado a ansiedade / insegurança (escolarização 2º corte do cordão umbilical). Precisa extravasar suas angustias e ansiedades. Como ainda não tem um repertório de vocabulário eficiente para comunicar esse desejo;
– porque uma criança escolhe outro como “vítima”? Porque se interessa por ela, seja pelos objetos que ela dispõe ou pelo tipo de atenção que recebe dos outros;
– impotência para falar quando já está maior;
– exploração motora;

Consideramos também ser importante refletir sobre a criança que é mordida, pois ser mordido uma vez pode ser acidente. Se isso acontece com frequência pode sinalizar uma necessidade de aprender a ser mais ativo na relação, se defender. Assim como quem morde precisa aprender a se expressar para alcançar o que deseja, quem sofre a mordida tem de descobrir como se comunicar para se defender.

A partir desta compreensão orientamos que pais e educadores:
-devem entender que a liberdade para a disputa é fundamental para o desenvolvimento humano, mas é claro que devem se empenhar para que esse comportamento seja controlado, incentivando a criança a utilizar sempre a linguagem verbal;
-palavras como “doi” e “não pode” são a melhor reação para orientar a criança a não morder (ser claro e pontual);
– conter tal comportamento sempre, impedindo que ele morda (de forma lúdica, não punitiva);
-dizer a ele que isso pode machucar as pessoas;
– intermediar a relação com as outras crianças de modo que tenha mais sucesso em sua interação;
-oferecer outro repertório com as outras crianças de modo que tenha mais sucesso em sua interação;
– atuar de forma previsível, mas com cuidado para não angustiar mais a criança. Ficar atento que a mordida pode acontecer em que momentos;
-estabelecer uma comunicação com a equipe de educadores;
– orientar quem mordeu;
– orientar quem foi mordido;
– tem momentos para juntar e para separar do grupo;
– professor sair para montar atividade e levar algumas crianças para ajudar;
– estimular outro tipo de contato físico – através do cuidado;
– ter um espaço amplo de atendimento aos pais;
– transformar sempre em NARRATIVA os fatos que aconteceram;
– observe em que situação a criança apela ao recurso da mordida. Se identificar, por exemplo, que ela morde por stress ou ao se sentir acuada, atue preventivamente. Isto é, ao perceber que ela vai enfrentar a situação, interceda ajudando-a a se expressar por palavras e evitando a “comunicação física”. Por exemplo, no tanque de areia: você percebe que ela vai morder colega que está com a pazinha. Interceder… Você quer a pazinha? CONTER – NARRAR;
– nunca estimule o revide;
-tente evitar o rancor contra a criança que mordeu;
– estimule a criança que foi mordida a dizer que não gostou de ter sido machucada;
– a criança não tem noção de tempo, por isso a resolução da mordida deve ocorrer de forma contextualizada;
-pais e educadores devem perceber a maneira como interage com a criança, pois muitas vezes são impulsivos na maneira de demonstrar carinho;
-não deve ter punição em casa – tem que ser dentro do contexto escolar;

As metas nesses casos de mordida serão de tornarem esses acontecimentos esporádicos.

Com essas orientações esperamos que algumas dúvidas tenham sido tiradas.

No Espaço Sementinhas nosso procedimento em caso de mordida é:
– comunicar a família (ligar antes que o responsável venha buscar)
– não falamos quem mordeu
– realizamos intervenções na sala de aula com a criança que mordeu, em caso de reincidência comunicamos aos pais o que está acontecendo e como estamos lidando com a situação, e orientamos quanto algumas conduções em casa, caso necessário.
– atendemos os pais da criança que foi mordida para esclarecimento dos fatos e orientações para conduções em casa;

Colocamo-nos a disposição para maiores esclarecimentos sobre esta temática. Atenciosamente,
Vivianne Calado.
Coordenadora do Espaço Sementinhas
(Psicóloga CRP 02/14235).