A temática “adaptação” ainda é pouco explorada pela literatura, embora seja de fundamental importância. Acredita-se que seja necessário um processo de adaptação nas instituições de ensino, primeiramente por se constituir, muitas vezes, na primeira experiência de separação da mãe do seu filho, situação que poderá ter implicações por toda a vida da criança.

Não existem receitas sobre a melhor escolha de uma instituição ou sobre os melhores procedimentos para atendimento de crianças pequenas, pois isso depende sempre das características de cada uma delas, do seu contexto familiar e social e das opções que se têm no momento da escolha. Entretanto, é sempre possível avaliar uma série de aspectos que estão relacionados à qualidade desse atendimento, à relação das crianças com os educadores, bem como é importante observar reações e mudanças comportamentais que ocorrem após o seu ingresso. Porque diante de eventuais sinais de sofrimento das crianças, nesse processo de adaptação ao novo ambiente, pais e educadores devem reavaliar as condições de cuidado que as crianças têm recebido, procurando identificar o que pode ser feito para auxiliar na sua adaptação.

Acredita-se que esse período se inicia nos primeiros contatos da família com a instituição, pois as primeiras impressões influenciam na forma como os pais se relacionarão com o novo ambiente.
O processo de adaptação tem seu tempo determinado por diversos fatores, podendo variar amplamente de caso para caso. Muitas vezes, depois de adaptado, mesmo que por um longo período, fatores externos ou do próprio desenvolvimento infantil podem levar o processo a recomeçar.

Adaptar-se a um novo ambiente, as novas rotinas, as pessoas não familiares, as separações diárias e a ausência da mãe colocam-lhes uma significativa exigência social e emocional. Diante disso, recomenda-se que durante esse período de adaptação, a mãe, o pai ou outro familiar deva ficar junto à criança para auxiliar na exploração desse novo ambiente e no estabelecimento de novos relacionamentos com os educadores e outras crianças.

A adaptação pode ser difícil não só para a criança, mas também para a família e para o educador, pois implica reorganizações e transformações para todos. A forma como esse processo é vivenciado pelas pessoas envolvidas influencia e é influenciado pelas relações da criança.

O choro é comum durante esse período, tanto na chegada, quando a criança é deixada na instituição pelos pais, como na saída quando os pais retornam para buscá-las. Existem inúmeras manifestações como gritos, reações de mau humor, bater nas pessoas, deitar-se no chão, reações de passividade, de apatia, de resistência à alimentação ou ao sono e comportamentos regressivos. Porque adaptar-se a algo necessita de tempo, conhecimento, experiência e, as vezes um primeiro ato de negação do novo, do desconhecido.
Os fatores que interferem na adaptação são: a segurança dos pais em deixar terceiros cuidar de seus filhos, a escolha da instituição; o número de educadores e a estrutura da instituição; a postura dos educadores; a idade das crianças; o temperamento da criança e a segurança emocional da criança.

A adaptação é um processo complexo e gradual, em que cada um precisa de um período de tempo diferente para se adaptar.

COMO SE DÁ ESSE PROCESSO NO ESPAÇO SEMENTINHAS?

Primeiramente, solicitamos o cuidado no preenchimento do Questionário Relacional que após preenchimento é repassado para as educadoras terem um conhecimento prévio da criança que estarão recebendo. Consideramos ainda importante realizar uma entrevista inicial (anamnese) para que possamos conhecer um pouco mais das crianças e da dinâmica familiar para assim facilitar a construção do vínculo, como também realizar orientações. Essa entrevista é realizada pela Psicóloga da instituição que, repassa um resumo para as educadoras, no intuito de informar aspectos que possam facilitar a acolhida da criança e da família.

Nesse momento da entrevista já orientamos como poderá se realizar o processo de adaptação.

Recomendamos que:
– reservem pelo menos três dias para acompanhar as crianças nesse processo de adaptação.
– nos primeiros dias o responsável, ou alguém que tenha uma boa vinculação com a criança permaneça dentro da sala para apresentar a instituição à criança e que possa aos poucos ir fazendo a passagem da referência para a professora e/ou auxiliar que estará acompanhando a turma.
– assim que a educadora sinalizar que você pode ir tentando sair da sala se retire para um local próximo. Caso seja necessário você será chamado novamente. A permanência inicial na sala deve favorecer a aproximação com o novo ambiente, transmitindo a ideia de que é um lugar seguro e confiável. Contudo, quando essa adaptação é realizada em um momento diferenciado, onde não existem outras crianças em adaptação, esse período de permanência não deve ser prolongado, pois pode gerar desconforto para as demais crianças, interrompendo a dinâmica das atividades.
– os pais não saiam do ambiente sem se despedir da criança, mesmo que essa fique chorando, pois isso poderá gerar uma quebra de confiança na criança que se sentirá insegura.
– cuidamos para que não termos mais que duas crianças em adaptação ao mesmo tempo na mesma turma.
– o horário dos primeiros dias deve ser reduzido e aumentando de forma gradativa de acordo com o tempo da criança e também da possibilidade dos pais, pois em alguns casos não têm com quem deixar.
– estabelecemos uma comunicação muito próxima aos pais para que esses fiquem mais seguros e repassem esse sentimento para os filhos, então investimos em ligações diárias para informar como estão se comportando; possuímos um sistema de câmeras por toda a instituição que facilita aos pais acompanharem em tempo real que tipo de atividade eles estão realizando; comunicamos-nos muito por telefone repassando informações sobre alimentação, socialização, primeiras vinculações.
– temos o cuidado nas distribuições do quantitativo de alunos por turma como, berçário são de até doze crianças para uma pedagoga, uma auxiliar (estudante de pedagogia), duas babás. A Turma dos maiores será em média 20 crianças por grupo para uma professora, uma auxiliar e uma babá.
– orientamos nossos funcionários a planejar e organizar o período de adaptação; preparamo-nos para garantir a segurança, um espaço confortável e adequado para recebê-los. Dessa forma, acreditamos que a criança vivenciará esse momento de forma menos sofrida.

Ressaltamos ainda que na busca de um atendimento de qualidade e respeitando as diferenças de cada criança e sua família, desde o início investimos fortemente nessa parceria.

Vivianne Calado
(Coordenadora do Espaço Sementinhas)
Psicóloga CRP 02/14235